<<Volta Comandante Nicolau Moraes Barros, presidente da Associação dos Tripulantes da TAM,
para a seção Perfil Sindical do jornal Dia a Dia, em setembro de 2002. Comandante Nicolau: 17 anos dedicados à TAM Faça um breve relato sobre a sua trajetória como comandante. Quando começou? Por que escolheu a carreira? Quais os desafios encontrados e que ainda encontra? O que espera da profissão? Toda a minha experiência profissional como piloto foi na TAM. Eu comecei aos 19 anos, como co-piloto de Bandeirante. Hoje, tenho 36 anos. São 17 anos de empresa. Minha carreira acompanhou basicamente a história de crescimento da TAM. Tive oportunidade de ingressar na TAM num período em que ela iniciava um crescimento explosivo. Minha ascensão à função de comandante foi muito rápida. Comecei como co-piloto de Bandeirante, depois, fui co-piloto de Fokker 27, os dois aviões que a TAM tinha na época. Aos 22 anos de idade, fui promovido a comandante de Bandeirante, aeronave que voei por quase 2 anos. Em seguida, fui comandante de F-27. Depois, a TAM começou a receber os Fokker 100. Aos 26 anos eu já era comandante desse equipamento. Depois da chegada do F-100, a TAM cresceu ainda mais rápido. Em 1998, quando surgiu a possibilidade de a TAM fazer vôos internacionais, nós não tínhamos ainda os Airbus 319 /320. Por isso, fui promovido diretamente para o Airbus 330, que faz vôos internacionais. E estou lá até hoje. Sou comandante. master de A-330. Creio que, juntamente com outros comandantes da TAM que têm idades próximas à minha, eu seja um dos masters mais jovens do mundo. Isso aconteceu porque tive a sorte de entrar na empresa certa, na hora certa e porque, mesmo diante de chances que apareceram de sair da TAM para outras empresas, fiz a opção certa por continuar na TAM. O apoio que recebi da empresa também foi fundamental. Mesmo quando ainda era muito jovem, sempre tive da TAM o apoio e o reconhecimento para crescer em minha carreira. Você sempre quis ser piloto? Sempre. Principalmente por causa da minha família. Meu pai e minha mãe eram pilotos. Meu pai tinha fazenda e semanalmente íamos e voltávamos da fazenda de avião. A intenção do meu pai ao me levar desde pequeno para fazenda era que eu acabasse gostando dela. Mas eu acabei pegando gosto pelo trajeto que fazíamos para chegar até lá, gostei do avião e pouco me interessei pelas fazendas. Comecei na área trabalhando como despachante de carga na Transbrasil. Fiz os cursos e tirei rapidamente minhas carteiras de vôo. Nessa época, tive a felicidade de encontrar alguém dentro da TAM que me acolheu e me deu essa oportunidade. Foi na TAM que comecei minha vida como piloto. Quais os desafios encontrados e que ainda encontra? Eu me considero uma pessoa muito privilegiada. Porque, para mim, as coisas na aviação aconteceram rapidamente. Ser piloto é minha vocação e me dediquei muito a isso. Quando você se dedica com intensidade a alguma coisa, muitas vezes ela acaba dando certo naturalmente. Pude participar dos processos seletivos da empresa. Tive as chances, consegui aproveitá-las e fui subindo rapidamente. Fui promovido a comandante master de A330 com 34 anos, sendo instrutor de rota e de simulador. O que você espera da sua profissão? Sou muito novo e tenho que utilizar isso a meu favor. Daqui para frente, preciso me dedicar a conseguir, cada vez mais, as complementações necessárias para minha formação. Não só na parte técnica, como também na parte administrativa, conhecendo o mercado e a empresa cada vez mais. Foi em cima dessa idéia e da idéia de que poderia colaborar muito com o grupo de vôo da TAM que partiu a decisão de vir para a ATT. Acho que tenho ainda uma vida inteira para me dedicar ao Grupo TAM. E, para isso, percebi que precisaria me preparar também administrativamente. Um pouco antes de ingressar na ATT, retomei meu curso de Administração de Empresas na Universidade Mackenzie. Com os vôos e o trabalho na ATT tive de parar o curso, adiá-lo um pouco. Retomá-lo é meu próximo passo nesse sentido. Vir para a Associação foi também uma parte dessa preparação. Chega um momento em que você precisa de alguma coisa a mais. Chegou um momento em que percebi que tinha um crédito importante dentro do grupo de vôo da TAM. Me propus a montar uma chapa para concorrer à eleição da diretoria da ATT acreditando que tinha a confiança do grupo e da empresa. A Associação tem sido uma grande escola para mim. Essa é a primeira vez que participa de uma associação de classe? Sempre estive ligado à ATT. Já participei do Conselho em uma gestão passada. Porém, muito timidamente. Posso dizer que tive uma participação ativa efetivamente nesta gestão e pretendo dar continuidade a esse trabalho. Acho que vale a pena continuar uma vez que percebamos que o que nos propusemos fazer quando nos candidatamos está sendo feito. Porém, se não estivermos conseguindo, então acho que vale a pena dar chance para outro grupo. De dentro da Associação, temos a percepção exata do que é importante para o grupo de tripulantes e também do que é importante para a empresa. De fora, eu não tinha muito essa noção. Você já pensava em ser presidente da ATT? Na verdade, essa possibilidade surgiu meio inesperadamente. Fui procurado por alguns colegas que acreditaram que seria um bom nome para a Associação. Até aquele momento nunca tinha pensado nisso. Mas essa possibilidade veio ao encontro dos meus projetos. Eu já estava no A-330, no topo na carreira na TAM como piloto, tendo vontade de ampliar meus conhecimentos. Senti que tinha possibilidade de ganhar as eleições. E conseguimos nos eleger com uma votação ampla (cerca de 73% do total de votos). Minha decisão e a vinda para a Associação foram rápidas. Para mim, esse trabalho tem sido muito bom. Quando estamos vendo a Associação de fora, não conseguimos ter a dimensão exata da importância desse trabalho. É a partir da atuação na Associação que podemos conhecer com clareza a empresa em que trabalhamos. Conhecer os problemas com a sua real grandeza. Também descobri o quanto é difícil o processo de relações humanas quando se está na posição de presidente da Associação. E essa é a base de muitas coisas: as relações humanas, a comunicação. Estar na diretoria da associação exige uma grande capacidade de comunicação. É necessário fazer entender as suas idéias, ser percebido da forma que você quer ser percebido, conseguir expressar suas propostas e ter a assertividade necessária para que a empresa as aceite. Para se chegar à presidência de uma Associação, é necessário fazer uma campanha, ter boas idéias. Porém, para se manter, é preciso ter a confiança tanto do grupo que representamos, quanto da empresa onde trabalhamos. Não basta ter boas idéias e bons ideais. Dirigir uma associação exige muita habilidade no controle da comunicação, na linguagem, nas noções de diplomacia, é um constante aprendizado. A TAM acaba de demitir 390 aeronautas. Como o senhor avalia o atual quadro da aviação civil e o que, na sua opinião, pode ser feito para reverter ou ao menos minimizar a crise? Mais precisamente, foram 81 comandantes, 66 co-pilotos e 250 comissários. A TAM vinha conseguindo, durante um bom tempo, se sustentar nessa ciranda econômica que é o Brasil hoje. Era uma das poucas empresas aéreas brasileiras que ainda não havia anunciado cortes de pilotos. Porém, os efeitos da crise econômica trouxeram a necessidade de uma reestruturação. Para este ano, a TAM havia apostado num crescimento do PIB brasileiro em cerca de 3%, o que acarretaria algo em torno de 9 a 10% no aumento de passageiros. No entanto, ficamos muito aquém disso. Em conseqüência, os custos precisaram ser revistos. Outros fatores, como o 11 de setembro, a desvalorização cambial que teve um impacto muito forte, os constantes aumentos no preço do querosene e a exposição à mídia que a TAM sofreu recentemente agravaram ainda mais as conseqüências de um crescimento que era esperado e não aconteceu. As medidas de reestruturação foram tomadas com agilidade e sinalizaram que existe uma determinação de dar continuidade à vida sadia da empresa a curto, médio e longo prazos. Temos acompanhado a evolução desse processo todo de perto e esperamos que as conseqüências para esses tripulantes que estão sendo afastados temporariamente dos quadros da TAM possam ser as menores possíveis. Houve uma pré-disposição muito grande da própria TAM em antecipadamente colocar alguns benefícios adicionais no pacote de afastamento desses tripulantes, como a continuidade de seus planos de saúde até o fim do ano, a manutenção dos passes para os pilotos e, o que é mais importante, o compromisso de recontratação desse grupo assim que novas vagas forem abertas. Paralelamente, a ATT está se mobilizando para encontrar outras medidas que possam tentar reduzir o impacto das demissões na vida desses colegas. Um quadro de demissões, por si só, sempre parece muito injusto. Afinal, estamos falando de colegas, profissionais, pais de família. Porém, dentro da nossa percepção, o processo que está acontecendo na TAM tem sido feito com respeito, dignidade e transparência a esses colegas que estão sendo afastados. Se houveram falhas, e sabemos que num processo grande como esse elas podem acontecer, nós estamos tentando identificá-las e aprender com elas. A TAM é uma empresa que não tem experiência na demissão. Ela tem muita experiência na contratação. Quando passamos por um processo como esse, tanto para a empresa, quanto para a Associação, é tudo muito difícil. Não é fácil administrar e ter a idéia exata de qual a melhor atitude para minimizar o impacto. Basicamente, estamos usando como termômetro o que os próprios tripulantes que estão sendo afastados estão sentindo. E pelo que temos conseguido perceber, apesar da situação negativa, a aceitabilidade das condições apresentadas a esses profissionais tem sido boa. A Associação está se mobilizando para ajudar aos demitidos. Estamos mantendo todos em nosso quadro associativo, e buscando ajudá-los em sua recolocação profissional. Estamos também pedindo sugestões desses colegas para entender quais são as suas necessidades básicas mais urgentes. Creio que o mais importante é definir uma estratégia para que eles possam retornar, dentro do compromisso assumido, o mais rapidamente possível para a empresa. E isso envolve uma série de reuniões, muito trabalho, grupos de tripulantes estudando a situação toda. E a Associação se empenhando para discutir a fundo esse assunto, avaliando todas as possibilidades do que imaginamos que pode acontecer na empresa nos próximos anos. Obviamente, existem algumas variáveis, como o que vai acontecer nas próximas eleições, como será o Brasil de 2003, como estará o nosso setor com a chegada de um novo governo. Situações para as quais ainda não temos resposta, mas que terão um impacto fundamental sobre as possibilidades de crescimento da TAM e, conseqüentemente, para a reintegração desses colegas ao nosso grupo. Qual deve ser o papel dos trabalhadores nas atuais circunstâncias? Primeiramente, temos que saber aproveitar esse momento para aprender com o que está acontecendo. A fase é extremamente negativa para todo o setor, não só para a TAM. Temos que considerar que isso pode acontecer para todos. Na TAM, depois de anos e anos de crescimento rápido, fomos surpreendidos por um cenário econômico nacional que nos levou a postergar um pouco nossos planos. A primeira constatação é que as coisas não estão nada fáceis. O mercado de trabalho para os tripulantes é muito restrito. No momento, praticamente não temos a possibilidade de recolocação no Brasil. Temos que nos dedicar cada vez mais, nos preparar para estar no máximo de nossa capacidade técnica, administrativa e pessoal. Estamos vivendo uma das piores épocas da história da aviação brasileira, em que até empresas tão grandes como a Varig estão com problemas. A crise está aí, não é pequena e afeta a todos nós, afeta a todas as empresas aéreas. Temos que tentar restabelecer laços para uma competitividade sadia entre as companhias. O setor passou por uma autofagia perigosa, que não demonstrou ser um modelo bom para nenhuma das empresas. A guerra tarifária, deflagrada há pouco pelo setor, se mostrou como uma estratégia meio suicida e todos estamos pagando o preço por essa estratégia. É importante que tenhamos um modelo de mercado que dê condições de sustentabilidade a nossas empresas. O desaparecimento de uma ou outra companhia é um péssimo sinal a todos os trabalhadores da aviação no Brasil. Mais que tudo, queremos que a TAM volte a crescer. Mas torcemos também para a recuperação da Varig, pois é importante ter uma Varig sadia no mercado. Não só para nós, tripulantes, mas para a própria TAM e para o Brasil. Não podemos correr o risco de ter nossos céus abertos para empresas estrangeiras. Os custos das empresas estrangeiras são bem diferentes, elas não sofrem o impacto do chamado "custo Brasil". Abrir os céus seria uma catástrofe. Traria uma concorrência desleal que nenhuma empresa brasileira hoje tem condições de suportar. Daí a necessidade e a torcida para a recuperação das empresas brasileiras e para uma concorrência justa e sadia entre elas. |