<<Volta Comandante Nicolau Moraes Barros, presidente da Associação dos Tripulantes da TAM, para a seção Entrevista do jornal Dia a Dia,
em março de 2004.
1. O acordo coletivo assinado entre o SNA e a TAM contemplou os anseios dos tripulantes da empresa? Cmte. Nicolau - Em 2003 vivemos um cenário realmente difícil para todas as empresas aéreas e particularmente para a TAM, onde tivemos, no início do ano, um número considerável de demissões. Os primeiros sinais de recuperação só apareceram no último trimestre. Acredito que, dentro dessa conjuntura, o que foi conseguido foi o possível. O anúncio desse acordo foi importante e foi bem recebido pelo Grupo de Vôo da TAM. Na minha opinião, a importância desse acordo foi maior pela participação da ATT e da TAM nas negociações que pelo próprio índice obtido. É importante lembrar que o encaminhamento do acordo foi feito inicialmente pela ATT e pela TAM. Fomos procurados pelo RH da TAM e percebemos que havia abertura para avançarmos num acordo. A ATT buscou essa aproximação e a discussão de índices com a Empresa, num trabalho que durou alguns meses. Na finalização desse acordo, contamos com a participação e o apoio do SNA. Acredito que, basicamente, o acordo conseguiu contemplar as expectativas. Mas o efeito mais importante foi o engajamento da Associação e da TAM, no trabalho junto aos Sindicatos para buscar um resultado que superasse o impasse das negociações entre SNA e Snea, que estavam emperradas e sem possibilidade de avanços. A celebração desse nosso acordo em particular foi importante para que o Snea retomasse as negociações com o SNA. Isso aconteceu logo nos dias seguintes ao fechamento de nosso acordo. O Snea sentou mais uma vez para conversar com o SNA e acabaram se acertando num modelo muito parecido com o que havíamos conseguido.
2 - Qual é a sua avaliação sobre o resultado final do acordo coletivo assinado entre o SNA e o Snea? Cmte. Nicolau - O resultado do acordo com o Snea foi muito parecido com o obtido pelo Grupo de Vôo da TAM, ainda que, na minha opinião, o acordo entre a ATT e a TAM, se for colocado na ponta do lápis, tenha sido um pouco melhor. O resultado foi importante para sinalizar para SNA, Snea e demais empresas qual é a posição da ATT. Uma posição madura, que evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, temos consolidada uma relação positiva entre ATT, Grupo de Vôo, Empresa e Sindicato. Se ela não fosse positiva, não haveria a possibilidade de termos avançado, de termos tomado a frente nesse processo, como também já havíamos feito em relação às cláusulas 5, 6 e 43 da Convenção Coletiva em 2003. O fechamento desses acordos demonstrou que, havendo responsabilidade, havendo disposição para conversar em bases concretas, sempre há espaço para conseguirmos bons resultados.
3. A atuação da diretoria do SNA na mesa de negociação com o Snea atendeu às expectativas dos aeronautas? Cmte. Nicolau - Eu, particularmente, acredito que apesar de todos os esforços feitos ao longo desses últimos dois ou três anos, o SNA ainda mantém uma posição dura. Uma posição que é um pouco diferenciada da linha de atuação da nossa gestão na ATT. Acho que isso é plenamente compreensível, visto que a Associação não é Sindicato e esse papel de endurecimento, quando necessário, cabe aos Sindicatos. Nós, da ATT, ainda somos mais favoráveis a uma negociação trabalhada com diplomacia. Já tivemos várias demonstrações de que isso é possível. Parabenizo o SNA por todo o trabalho que ele tem feito. E torço para que exista uma dose um pouco maior de diplomacia nas relações para que possamos efetivamente alcançar melhores resultados. Essa é a estratégia que eu considero mais produtiva. Tem de haver, seja no Sindicato, seja nas Associações, um elemento que tenha uma capacidade diplomática para atuar na difícil tarefa de conciliar as demandas. Eu acho que a ATT tem cumprido esse papel de uma forma muito boa. O amadurecimento da ATT foi possível graças também ao próprio Sindicato. O SNA foi importante para mostrar um lado das negociações, como foi importante a Associação entender o lado do Sindicato das Empresas. É fundamental ter uma fotografia clara de todo o problema. Qualquer pessoa, qualquer entidade que se proponha a intermediar relações tem a obrigação de ter a visão mais ampla possível de todos os aspectos de uma negociação.
4. O que deve ser feito pelo sindicato e pela ATT para aumentar a participação dos tripulantes da TAM nas lutas da categoria? Cmte. Nicolau - Eu acho até que a expressão “lutas da categoria” deveria mudar porque dá a impressão de “um contra o outro”. Na atual conjuntura, isso afasta ao invés de aproximar. Temos que conseguir transmitir ao grupo uma visão mais positiva e menos de “embate”. Acredito que quando todo o grupo perceber o Sindicato como uma entidade com grande capacidade construtiva para lidar com as suas questões, a participação será maior. Hoje, existe um certo medo por parte do Grupo de Vôo de se associar ao Sindicato e acabar sendo visto como “sindicalista”. O problema, na verdade, vem da imagem que ele tem do Sindicato. E se isso acontece, é porque algo está errado. O Sindicato tem um papel fundamental e isso precisa estar claro para todos. Eu tenho a seguinte opinião: o mais importante não é a percepção que nós temos do que fazemos. Obviamente, ela tem que ser positiva, mas não é a principal. Mais importante é a percepção de quem está sendo servido pelo nosso serviço. Portanto, se temos hoje um nível de evasão significativo do Sindicato e um número grande de aeronautas que não são sindicalizados, entendo que este problema deve ser uma prioridade do Sindicato. Deve ser feito um esforço muito grande para que o grupo volte para dentro do SNA. O Sindicato deve avaliar o que precisa ser revisto para que isso seja possível. É obvio que existem outros fatores, não só relacionados ao próprio Sindicato. Ás vezes, a relação entre capital e trabalho está tão desequilibrada que o esvaziamento acontece não por culpa do Sindicato. Mas eu acho que sempre existe espaço para uma auto-análise. Nós fazemos isso continuamente na Associação. Separamos os pontos que consideramos que não estão sendo bem percebidos e buscamos mudar isso. Trabalhamos em cima dos problemas. Temos feito isso há alguns meses e estamos tendo bons resultados. Acho que cabe ao Sindicato também pensar nisso. O aeronauta tem que perceber o Sindicato mais próximo, mais fácil para ele participar.
5 - O nível atual de sindicalização dos tripulantes da TAM é satisfatório? O que pode ser feito para aumentar o número de sócios do SNA? Cmte. Nicolau - A ATT trabalha já há algum tempo em parceria com o Sindicato para melhorar a conscientização política de cada membro de nosso grupo. Nos últimos anos, nós, da ATT, temos feito um trabalho de base dentro da própria Empresa, expondo a percepção do que entendemos como sendo o papel do Sindicato e a necessidade de termos uma participação efetiva lá dentro. O primeiro passo para isso é termos o maior número de pessoas sindicalizadas, para que possamos levar para dentro do SNA as idéias e as demandas do Grupo de Vôo da TAM especificamente. E para que isso possa ser feito de uma maneira mais tranqüila, é importante que a própria Empresa entenda que é mais vantajoso termos o nosso grupo dentro do Sindicato do que fora dele. Temos que ter a capacidade de liderar os processos e participar ativamente das discussões que envolvem o Grupo de Vôo. Ter essa participação é imprescindível para que façamos valer o que nós queremos para nosso grupo. Caso contrário, ficamos à mercê de decisões de terceiros que nem sempre vão ao encontro do que nós queremos. Não adianta reclamarmos e continuarmos à margem desse processo. A TAM de hoje não é uma empresa com cinco ou seis aviões voando para cidades do interior de São Paulo. É uma empresa de penetração internacional, que tem que ter a sua representatividade dentro do Sindicato proporcional ao que ela representa hoje dentro do cenário da aviação brasileira. Eu sempre defendi isso e entendo que essa é a única forma que temos para buscar corrigir o que acreditamos estar errado dentro do Sindicato. Essa relação é uma via de duas mãos. Funciona ora cobrando demandas específicas do Grupo de Vôo para com a Empresa, ora defendendo demandas necessárias para o Grupo de Vôo e favoráveis à Empresa. Se nós não temos nosso grupo dentro do SNA, não conseguimos defender nem uma via, nem outra.
6 - Quais são as ações necessárias para se estreitar as relações entre o sindicato e as associações classistas? Cmte. Nicolau - Acredito que, acima de tudo, é necessário superar questões de um passado recente que ainda estão pendentes e que impossibilitam avanços. A ATT fez um trabalho muito claro nesse sentido e deu uma demonstração muito digna de superação. Hoje, nós viramos a página, esquecemos mágoas do passado que tínhamos com o Sindicato e partimos para um trabalho de evolução efetiva. Sabemos que existem diferenças em pontos de vista e formas de atuação da ATT, não apenas em relação ao Sindicato, como também em relação a outras Associações. Isso, no entanto, não tem impedido que conversemos com todas as entidades quando os assuntos são comuns a todos. As diferenças não podem ser argumento para que deixe de haver uma discussão ampla na busca pelo melhor para todos. Porém, no decorrer desses últimos anos percebemos que, na maior parte das vezes em que precisávamos de um trabalho conjunto, não pudemos contar com a representação de todas as entidades, em geral por problemas do passado que não foram resolvidos entre Associações ou entre alguma Associação e o Sindicato. Minha opinião é que não é correto discutirmos questões tão importantes tendo a falta de um ou de outro participante. Temos que ter hoje a possibilidade avançar, de criar uma agenda comum de projetos e o Sindicato tem que ser o porta-voz disso. Enquanto as entidades representativas continuam brigando internamente, toda uma agenda de projetos fica parada e isso tem brecado nosso avanço nos últimos anos. Enquanto não se resolverem pendências do passado, não é possível pensarmos num futuro dentro de um modelo ideal que já deveria estar sendo utilizado há mais tempo nas relações entre Associações e Sindicato. |